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Psicologia

 

 

 

 

As teorias, discussões e controvérsias sobre a "Personalidade" foram temas sempre presentes em toda história da filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e medicina geral. Entre tantas tendências, destaca-se um tronco ideológico, segundo o qual os seres humanos foram criados iguais quanto sua capacidade potencial. Neste caso, a ocorrência das diferenças individuais seria interpretada como uma decisiva influência ambiental sobre o desenvolvimento da Personalidade.
De acordo com tal enfoque, havendo no mundo uma hipotética igualdade de oportunidades, todos seríamos iguais quanto as nossas realizações, já que potencialmente somos iguais. Assim pensando, se a todos fossem dadas oportunidades iguais, como por exemplo oportunidades musicais ou artísticas, seria impossível destacar-se um Mozart ou Tchaicowski porque a potencialidade de todos seus colegas de classe seria a mesma. A única diferença entre Einsten e os demais teria sido uma simples questão de oportunidade e circunstâncias ambientais. Neste caso a Personalidade, a inteligência, a vocação e a própria doença mental seriam questões exclusivamente ambientais.
A idéia de buscar fora da pessoa os elementos que explicassem seu comportamento e sua desenvoltura vivencial teve ênfase com as teorias de Russeau, segundo o qual era a sociedade quem corrompia o homem. Subestimou-se a possibilidade da sociedade refletir, exatamente, a totalidade das tendências humanas. Seres humanos que trazem em si um potencial corruptor o qual, agindo sobre outros indivíduos sujeito à corrupção, produzem um efeito corruptível. Ou seja, trata-se de um demérito tipicamente humano.
Outra concepção acerca da Personalidade foi baseada na constituição biotipológica, segundo a qual a genética não estaria limitada exclusivamente à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, à estatura, aos distúrbios metabólicos e às más formações físicas, mas também, determinaria as peculiares maneiras do indivíduo relacionar-se com o mundo: seu temperamento, seus traços afetivos, etc.
As considerações extremadas neste sentido descartam qualquer possibilidade de influência do meio sobre o desenvolvimento e performance da Personalidade e atribui aos arranjos sinápticos e genéticos a explicação de todas as características da personalidade da pessoa.
Buscando um meio termo, como apelo ao bom senso, podemos considerar a totalidade do ser humano como sendo um balanço entre duas porções que se conjugam de forma a produzir a pessoa tal como é:

1. uma natureza biológica, tendo por base nossa natural submissão ao reino animal e nossa submissão também às leis da biologia, da genética e dos instintos. Assim sendo, os genes herdados se apresentam como possibilidades variáveis de desenvolvimento em contato com o meio (e não como certeza inexorável de desenvolvimento);
2. uma natureza existencial, suprabiológica conferindo à Personalidade elementos que transcendem o animal que repousa em nós. A pessoa única e individual, distinta de todos os outros indivíduos de sua espécie, traduz a essência de uma peculiar combinação bio-psico-social.

Desta forma, a idéia de Personalidade poderia ser esbouçada da seguinte maneira:

"Personalidade é a organização dinâmica dos traços no interior do EU, formados a partir dos genes particulares que herdamos, das existências singulares que suportamos e das percepções individuais que temos do mundo, capazes de tornar cada indivíduo único em sua maneira de ser e de desempenhar o seu papel social".

Portanto, o ser humano não pode ser considerado como um produto exclusivo de seu meio, tal como um aglomerado dos reflexos condicionados pela cultura que o rodeia e despido de qualquer elã mais nobre de sentimentos e vontade própria. Não pode, tampouco, ser considerado um punhado de genes, resultando numa máquina programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido exatamente os seus ascendentes biológicos. Se assim fosse, passaria pela vida incólume aos diversos efeitos de suas vivências pessoais. Sensatamente, o ser humano não deve ser considerado nem exclusivamente ambiente, nem exclusivamente herança, antes disso, uma combinação destes dois elementos em proporções completamente insuspeitadas.
Todas as vezes que colocamos lado a lado duas pessoas estabelecendo comparações entre elas, qualquer que seja o aspecto a ser medido e comparado, verificamos sempre a existência de diferenças entre ambas. Constatamos assim, as diferenças entre os indivíduos, as peculiaridades que os tornam únicos e inimitáveis.
Por outro lado, podemos verificar também e paradoxalmente, outras características comuns a todos os seres humanos, tal como uma espécie de marca registrada de nossa espécie. Desta feita, há elementos comuns e capazes de nos identificar a todos como pertencentes a uma mesma espécie, portanto, característicos da natureza humana e, a par destes elementos próprios da espécie, outros atributos capazes de diferenciar um ser humano de todos os demais.
Para demonstrar didaticamente este duplo aspecto da constituição humana imaginemos, por exemplo, um enorme canteiro de rosas amarelas. Embora todos os "indivíduos" do canteiro tenham características comuns e suficientes para considerá-los e identificá-los como sendo rosas amarelas, será praticamente impossível encontrar, entre eles, dois exemplares exatamente iguais, pois todos possuem traços individuais. As rosas têm perfume, pétalas e espinhos, entretanto, umas têm mais perfume, pétalas de tonalidade diferente e espinhos mais realçados que outras. No ser humano normal também podemos encontrar como características universais a angústia, a ambição, o amor, o ódio, o ciúme, etc. Porém, em cada um de nós estes traços combinar-se-ão de maneira completamente singular.
Desta forma, podemos afirmar que os seres humanos são essencialmente iguais e funcionalmente diferentes, ou seja, podemos nos considerar iguais uns aos outros quanto à nossa essência humana (ontologicamente), entretanto, funcionamos diferentemente uns dos outros.

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BALLONE, G J - Personalidade, in. PsqWeb, programa de Psiquiatria Clínica na Internet,
http://meusite.osit.com.br/ballone/
Campinas, SP, 1999.

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